Em 28 de setembro de 1872, o jornal “La República” anuncia a publicação da obra “El gaucho Martim Fierro”.
José Hernández tinha 38 anos. Jornalista por vocação.
Sua mais famosa criação é obra da maturidade. Uma maturidade que provém, não da sua idade, mas de uma riquíssima experiência na luta política, na conspiração revolucionária, e da vida militar como soldado da causa federalista.
José Hernández, nasce no dia 10 de novembro de 1834, no Distrito de San Martin no noroeste de Buenos Aires. Nesse tempo, Rosas, já era uma figura destacada na política rioplatense. Passou a sua juventude no campo, numa estância mais ao sul onde seu pai era capataz. Ali se fez “gaucho” campereando, gineteando, enfrentando os “malones”dos índios pampas .
Foi militante político fervoroso pela causa federalista e popular contra os “unitários”, tendo nesse tempo, como referência política, a Justo José de Urquiza.
Em 29 de março de 1857, há eleições para governador de Buenos Aires e o oficialismo de Alsina, através de fraude, ganha o pleito e persegue os seus adversários políticos, entre eles, José Hernández .
O novo governo fecha jornais não oficialistas e muitos cidadãos são presos, torturados ou mandados para a fronteira com os índios, perdendo, muitos deles, bens e família .
Emigrando para o Uruguai, porém segue escrevendo e lutando nas filas da Confederação .
Em 06 de agosto de 1869, funda o periódico “El Rio de la Plata” e continua sua prédica, falando sobre o falso conceito de civilização usado para denegrir os “criollos”, sobre a má distribuição das terras e as péssimas condições de serviço militar na fronteira assim como do sofrimento das classes populares.
Hernández era um autêntico federalista e inimigo do regime Rosista, do qual disse: “vinte anos dominou Rosas esta terra; vinte anos seus amigos lhe pediram que desse à República uma Constituição; vinte anos tiranizou, despotisou e ensangüentou esta terra”.
Afastou-se de Urquiza quando este traiu a causa apoiando a guerra da Tríplice Aliança .
Em 1863, diz: “...Em nome da independência haveis conspirado contra a Independência de um povo...”
Assim escreve no seu Martin Fierro :
“ Y dejo rodar la bola que algun dia ha de parar tiene el gaucho que aguantar hasta que lo trague el hoyo o hasta que venga algún criollo en esta tierra a mandar”,
referindo-se a Ricardo Lopez Jordan e não a Rosas ou Urquiza como alguns indicaram .
Hernández, como jordanista, participa da campanha do levante de Lopez Jordan, autêntico caudilho federalista,que tem relações intrínsecas com a revolução de Timoteo Aparicio, em 1870, no Uruguai .
Depois da debandada, José Hernández acompanha seu caudilho e juntos, emigram para o Uruguai, cruzando o rio no Rincão de Santa Eloíza . Proscrito políticamente, vive em Paisandú , Montevidéu e Sant’Ana do Livramento, na fronteira do Brasil com Uruguai. É nesse tempo e sobre esse contexto, que escreve Martin Fierro.
O “protesto social” do poema é extraído do drama protagonizado pelas massas populares que viveram no litoral mesopotâmico da Argentina e na República Oriental do Uruguai, durante os anos de 1860 a 1870. Não é por acaso que as “montoneras” de um lado e outro do Rio Uruguai usem como distintivo a divisa branca para identificar das idéias federalistas que Artigas tinha semeado nessa região entre 1811 e 1820 .
Alguns críticos argentinos afirmam que “Martin Fierro” é uma obra de argentinidade, porém, na realidade, é uma obra rioplatense, pois a vivência de José Hernández, o seu conhecimento sobre o drama da região e a psicologia do “gaucho” é típica dos “paisanos” que viveram nessas bandas .
São esses aspectos que caracterizam esta maturidade intelectual e política,que somente podem advir de alguém que, através do vivido, possa criar um personagem que vivendo nesse contexto, possa expor tão magnificamente a alma e o sentir de um povo, o que faz com que essa obra tenha invadido as mentes e os corações das massas populares que noutro contexto e noutra época, ainda padecem do mesmo drama e nutrem as mesmas esperanças.
*Manuel Oribe Fernández Alves é musico-poeta-letrista . Convidado da BPP para a mesa-redonda do evento Martin Fierro- Imagens, Letras & Versos , dias 25 e 26 de setembro de 2007.