Quando Jose Hernandez publicou “Martin Fierro” a região do Rio da Prata passava por um truculento período, com caudilhos espertos e cruéis, sustentados nas patas dos cavalos, nas lanças, espadas e trabucos. Em 1852, Juan Manuel de Rosas, derrotado depois de mandar na Argentina por mais de vinte anos, é sucedido por Justo José de Urquiza, general e governador da província de Entre-Rios. Os dois consideravam-se “ muy amigos”, o que não os impedia de espionarem-se sempre que podiam. Rosas reforçou o exército de Urquiza, que, pouco depois aliou-se ao Brasil e Uruguai e expulsou Rosas para a Inglaterra. Alguns caudilhos queimavam acordos se pudessem vender as cinzas dos papéis assinados.
O tempo que Rosas passou no poder em Buenos Aires foi marcado por violência extraordinária, pois o medo fazia parte de uma estratégia de dominação, baseada no terrorismo. Atos de selvageria eram planejados para assustar. A perseguição ao casal de amantes Ladislau Gutierrez e Camila O´Gorman foi um dos episódios mais representativos desta barbárie.
Os dois jovens se apaixonaram, mas tiveram que se separar. O rapaz havia sido predestinado por sua família para ingressar na carreira religiosa e assim foi encaminhado a um seminário para tornar-se padre. Ordenado sacerdote foi designado para uma paróquia de Buenos Aires, reencontrando Camila. Não conseguiram esconder seu amor e decidiram fugir em dezembro de 1847.
O caso foi explorado pelos inimigos de Rosas, os unitários. O ditador reagiu e determinou uma caçada ao casal. A transcrição de um documento existente no acervo de um antiquário de Buenos Aires, revela detalhes da grande operação de perseguição.
O “ procura-se “ descrevendo o casal, era uma proclamação para ser afixada em lugares públicos na Argentina. Como todos os papéis oficiais do período rosista, o documento começa com o tradicional “Viva a Confederação Argentina” e “Morte aos selvagens unitários”, mas, em alguns trechos, o texto não deixa de ser um poema, quando trata da descrição de Camila: “estatura muy alta, delgada de cuerpo, bien repartida”. Ou então quando descreve seus olhos: “ negros, de mirada agradable”.
O papel traz escrito os nomes do “ réu presbítero Ladislau Gutierrez e Camila O´Gorman e depois, em duas colunas a descrição de cada um, dizendo que Ladislau é de Tucuman, eclesiástico, 24 anos, tem estatura regular, alto de corpo, com olhos “ pardos, grandes, meio saltados”. Os cabelos são pretos e crespos e conserva barba inteira.
Após a descrição,mais explicações: “Estava de cura acidentalmente na Paróquia de Nossa Senhora do Socorro em Buenos Aires. Leva dois ponchos tecidos, um preto e outro também escuro, mas com listras coloridas. Nos arreios leva malas de garupa onde tem pistolas. Monta um cavalo cebruno e leva mais um de pelo ruano, sem ferraduras. Leva duas malas de garupa, uma nova, que é onde vão colocadas as pistolas e outra de Tucuman, usada e de cabeçadas altas”.
Mais detalhes:” o traje que estava vestido na noite de 11 do corrente, quando fugiu, era uma polaca preta com couro e botas de veludo da mesma cor, uma jaqueta de veludo preta e uma calça escura, acredita-se que ande com uma bonita gorra de pano.
Camila tem um dente da frente começando a quebrar. Leva uma quantidade de roupa de uso bastante decente e entre essa, alguma preta, porque estava de luto. Fugiu em 11 do corrente as dez da noite. E encerrava com a data: Buenos Aires, 24 de dezembro de 1847 ”.
Camila e Ladislau foram presos, após sete meses de fuga, e executados publicamente em 18 de agosto de 1848, num ritual, triste e impressionante. Ela vestida de branco, grávida de oito meses, desfilou com seu companheiro diante do pelotão de fuzilamento. A dupla execução arranhou o prestígio de Rosas, mas ele explicou que a anarquia moral exige castigo exemplar e que o medo é o único impulso que lembra o homem de cumprir a lei.
E a lei, conforme Martin Fierro “é como uma faca, não fere quem a maneja”.
* Euclides Torres é jornalista e escritor – autor de A PATRULHA DE SETE JOÃO , romance histórico sobre a violência política no Pampa do Séc. XIX. É convidado da Bibliotheca Pública Pelotense para o evento MARTIN FIERRO, no próximo dia 26 de setembro.