Ao falar da pampa, sabemos que um tronco comum nos une a riograndenses,
argentinos e uruguaios. As diferenças, sem dúvida, existem entre um povo e
outro, mas quem já transitou por este enorme mar verde de suaves ondulações,
de impressionantes planícies, reconhece as semelhanças. Apesar de que alguns
queiram distanciarnos, devemos reconhecer que são inquestionáveis essas
similaridades.
Neste espaço geográfico, desde a colonização, existiam grupos
sociais diferentes: proprietários de estância, a classe média formada por
comerciantes minoritários e pulpeiros ( as pulperias eram centros de
distração e realizavam o pequeno contrabando), o índio vinculado com o
elemento espanhol ou português, e o gaúcho ou gaudério. Este, pode ser
negro, branco, índio, mas o mais comum é que seja o produto da mescla destas
raças. A vida eqüestre, a alimentação carnívora, o intempérie, os ventos da
pampa, o formam magro, ágil e duro. Alguns usam chapéu, outros prendem os
cabelos com a faixa copiada do índio. Botas de potro, poncho, chiripá
completam sua indumentária. A vida isolada os faz taciturnos e silenciosos.
A liberdade e a abundância lhe formam um caráter hospitaleiro, altivo, leal.
Do conquistador, recebe o cavalo e a guitarra. Do índio, o poncho, o mate, a
faixa e boleadeiras. Seu estilo de vida necessita de uma qualidade
essencial: a coragem. Não há em sua existência nem leis nem juízes, toda
questão pessoal se resolve no duelo a faca.
Foram muitas as guerras, os entreveros nesta parte da América, sobretudo na
luta pela conquista da independência das coroas portuguesa e espanhola.
Nessas ocasiões, homens da cidade conviveram com os da campanha e se
identificaram com eles, concebendo, sem falsidades, a singular poesia
gauchesca. O iniciador, pelos lados do Rio da Prata, foi o montevideano
Bartolomé Hidalgo (1788-1822) com uma obra de inspiração revolucionária e
patriótica expressa na linguajar gauchesco. Escreveu "cielitos", versos em
romance que revelam o instinto belicoso, o protesto viril e doloroso da alma
gaudéria, seu amor à liberdade, assim como seu repúdio aos exércitos e
governantes espanhóis e portugueses. Sempre se disse que Hidalgo representa
o espírito do homem da campanha. Suas primeiras composições foram os
"Diálogos Patrióticos", em que dois gaúchos, o capataz Jacinto Charro e
Ramón Contreras, recordam eventos da pátria. Nesses versos, Bartolomé
Hidalgo, descobre a entonação do gaúcho e, como disse Jorge Luís Borges,
"saber como fala um personagem, é saber quem é."
Outro pilar da poesia pampeana, é o uruguaio Antonio Lussich, quem escreveu
um livro muito elogiado pelo argentino José Hernández, "Os três gaúchos
orientais", que trás à cena tipos gaúchos da revolução na chamada campanha
de Aparício. A obra de Lussich foi editada em Buenos Aires pelo jornal "La
Tribuna", em 14 de junho de 1872.
José Hernández é, sem dúvida, o mais conhecido dos poetas não
contemporâneos, que descreve a pampa e a sua gente. Martin Fierro, de sua
autoria, se publica pela primeira vez em 1872 com o nome de "O gaúcho Martin
Fierro" e, em 1879, continuação da anterior, "A volta de Martin Fierro".
Muitos estudiosos afirmam, inclusive argentinos, que a primeira parte foi
escrita por José Hernández, em Santana do Livramento, (onde estava exilado)
mais precisamente na esquina das ruas Rivadávia Corrêa e Uruguai. Em uma
reportagem publicada em 06 de outubro de 1940 no diário portenho "La
Prensa", se assegura: o filho de Pedro Garcia, já octogenário, o espanhol
que hospedou Hernández, recordava ainda, "o ar apaixonado do poeta".
Em sua obra, Hernández conta a história de um gaúcho que perde a liberdade ao ser
convocado à força para servir ao exército. Vítima de arbitrariedades de seus
superiores, se transforma em desertor e, quando volta a sua casa, descobre
que esta foi destruída e sua família havia desaparecido. É perseguido pelo
sargento Cruz, quem termina por tornar-se seu amigo. Ambos procuram um lugar
para viver em paz e poder encontrar seus entes queridos. Devemos recordar, o
exército, na época em que se situa Martin Fierro, desempenhava uma função
penal. A tropa era composta, em grande parte, de malfeitores ou de gaúchos
arbitrariamente arrebanhados. Hernández escreveu Martin Fierro para
denunciar esse regime. Queria comprovar que essas levas eram a ruína da
gente da campanha. Para muitos contemporâneos do escritor, a pampa, esse
gigante solitário era a matriz da barbárie americana, ninho de cristãos
selvagens, nômades, abrigados em tendas de couro, erguidas aqui e acolá, sem
lugar fixo. Domingos Faustino Sarmiento, presidente da Argentina, de 1868 a 1874,
proclamava: "era preciso derrotar o gaúcho para que a civilização eximisse a
barbárie do campo, a tiro e canhonaço, se fosse possível e importar europeus
para povoar o país. É contra esse pensamento que José Hernández se rebela.
Na chácara de Pueyrredón, no atual distrito de San Martin, a várias léguas
ao noroeste de Buenos Aires, nasceu José Hernández, em 10 de novembro de
1834. Corria por suas veias sangue espanhol, irlandês e francês. Tinha 18
anos, quando seu pai, administrador de estâncias, o levou consigo ao sul da
província de Buenos Aires, na época, uma região primitiva. Fez-se gaúcho,
aprendeu a cavalgar, tomou parte em vários entreveros, rechaçando "malones"
dos índios pampas. Em 1853, combateu em Rincón de San Gregorio, em 1876,
estava em Buenos Aires, exercendo o jornalismo. Depois, sua vida é variada.
Entrou para o exército, trabalhou como comerciário, foi taquígrafo do corpo
legislativo. No período de 1879 a 1881, Hernández foi deputado e
vice-presidente da Câmara. Em seus últimos anos, foi membro do Conselho
Geral de Educação. Morreu em Belgrano, em 21 de outubro de 1886.
* Uruguaia radicada em Pelotas , Alma G. Berasain produziu este texto especialmente para o evento ( 25 e 26 de setembro) MARTIN FIERRO – Imagens, Letras & Versos , da Bibliotheca Pública Pelotense.