Entre 1536 - com a fundação da primeira Buenos Aires por Pedro de Mendoza (seria destruída e fundada a segunda e definitiva cidade por Juan de Garay, em 1580), passando pelo governo de Hernandarias, pela fundação da portuguesa Colônia do Sacramento e pelo nascimento, apogeu e queda da utopia jesuítica (que não foi destruída nem mesmo pela sanha das Bandeiras, mas que encontrou o seu fim nos tratados de além-mar), passando pelas incursões de Pedro de Cevallos no lado lusitano e de Pinto Bandeira no lado espanhol (da tênue e móvil fronteira), cruzando ainda pela gesta revolucionária de Artigas, pelo extermínio dos Charruas e por mil guerras pampeanas - e o ano de 1879 - quando finalmente os últimos índios Pampas (comandados pelo filho do lendário cacique Cafulcurá (Pedra azul) são derrotados no que os brancos (huincas) chamaram de ‘la conquista del desierto’, ou o que Sarmiento (o grande político e pensador argentino) denominou de necessária vitória da civilização sobre a barbárie (ainda haveria resquícios dessa época em algumas décadas mais, com revoluções esparsas nesta parte do planeta, vide os irmãos Saravia e outros caudilhos mais, porém já era um tempo em estertor, condenado pela chegada das armas de repetição, pelo telégrafo e pelos alambrados) – passaram-se aproximadamente 350 anos. É nesse período que nasce e se forja um tipo humano determinado pela mestiçagem entre povos distintos e também pela geografia. A mestiçagem é a de índios, negros, espanhóis e lusitanos. A geografia é ‘a imagem do mar na terra’, a vegetação escassa, a ventania quase constante (que inspirou o título do épico de Érico Veríssimo), a superfície quase imutável, desde o que hoje é parte do Rio Grande do Sul até os limites da patagônia.
Determinado por esse contexto cresce e prolifera a figura do cavaleiro nômade que viria a ser conhecida como ‘gaucho’, ou gaúcho, conforme o idioma da fronteira utilizado (estima-se que em meados do século XIX havia aproximadamente 400.000 desses centauros ‘sem lei, nem rei’ vagando pela região chamada de Pampa). Sobre ele escreveu Domingos Sarmiento (que viria a ser presidente da Argentina, em 1868) a sua monumental obra ‘Facundo’ (1845 - baseado no ‘Tigre de los llanos’, o caudilho Facundo Quiroga), com sua visão civilizatória e, portanto, defensora da idéia do necessário extermínio desse ser que, segundo ele, impedia a evolução dos povos desta parte do mundo. Na visão contrária – e não menos grandiosa – José Hernandez escreveu a obra ‘El gaucho Martín Fierro’ (em 1872) e a sua continuação ‘La vuelta de Martín Fierro’ (em 1879), versando (e versejando, qual um payador) sobre a agonia dessa estirpe que, justamente no ano desse último livro, começava a extinguir-se como realidade para, afinal, tornar-se – com o passar do tempo – um mito. Um mito criacional hoje pertencente a três pátrias. Formador de culturas. De um jeito de ser. Dos costumes de povos que mesmo separados por fronteiras políticas, são capazes de se reconhecer naquele mesmo ancestral representativo de uma raça que ‘al compás de la vigüela’ aqui se punha a cantar.
*Martim César Gonçalves é poeta-letrista e escritor. Texto de apresentação para Martin Fierro – evento da Bibliotheca Pública Pelotense , nos próximos dias 25 e 26.