I A vida não se aprende nos bancos das faculdades...
...já dizia a voz missioneira de Noel Guarany, que estava tocando no radinho (já com as pilhas se entregando) do alambrador “Pedro Martins”, numa emissora castelhana Am sintonizado, ali na fronteira com o rio Jaguarão...3 vezes o galo já havia cantado, e a lenha de uma “curunilha” estava queimando no fogão...havia caído no último temporal de Santa Rosa que por diante havia levado, os telhados de um galpão (hum latifúndio falido que hoje pertence a Votorantin) no distrito de Mauá, em Arroio Grande, lá na “Estrada da Figueirinha” onde começa seu mundo...lá no fim. Mas os ventos de Iansã não haviam castigado o velho rancho de taipa, moradia simples...gigante, sem luz elétrica, benzida pelas sementes que o destino quis, que os mesmos ventos de antes, trouxeram e depois levaram de outros mares pra outros lugares em outros tempos pra outros fins... Sua mãe índia, seu pai mulato e seu padastro. Este último, um castelhano “maleva”, que o queria como um filho e contrabandeava gado por aquelas trilhas por aqueles trilhos, desde o tempo da guerra e se amigou com aquela índia depois que seu pai se foi para sempre daquela terra, levado por São Benedito, numa penca de domingo...duelo de adaga...jogo do osso, carpa , canha e cancha reta, quando ele ainda mamava, nas tetas, a via láctea...o néctar divino...Sua vida estava escrita nas folhas em branco do papel de fumar...seus documentos, marca Xirú, era o único que tinha na venda do compadre Coreolano (ali perto “das casa”), sua palavra...um fio de bigode, lhe atava, a qualquer compromisso, promessa, dívida ou juramento. Mas assim como o rastro de um avião que passava despercebido naquele momento, os “recuerdos” viravam fumaça debaixo do chapéu de palha, quando ele acendia o primeiro Pito e o primeiro mate cevava, sentadito num pelego, quando a cuscada ali na volta “dos garrão” e “os quero- quero”, ali no lombo “das coxilha”, já começavam a avisar do movimento e os primeiros raios de sol já despontavam na costa da Lagoa Mirim, e o bando de pássaros se perdia no horizonte sem fim, levando na ponta das asas...os pensamentos . Quem sabe pra onde? Como se fossem caravanas de Mouros, que todos os dias vinham de longe, e as bênçãos do sol lhe traziam, no ouro sagrado do amanhecer e no entardecer de rubis dourados , que ele guardava na sua alma, com meia dúzia de pesos, lá no fundo daquela guaiaca...Pedro...Não sabia ler nem escrever, mas conseguia ver nas entre linhas da natureza que “a liberdade não tem preço”, porque esta mais singela beleza, ninguém pode ter só pra si mesmo ...Um segredo...apenas dois: De seu pai uma, adaga...de seu padrasto um livro, “Martín Fierro”, edição de 1903, encadernada em couro de rês, quando ele (Pedro), se largou mundo afora, fechando a porteira do passado...Na mala de garupa, aqueles versos ficaram guardados, e lhe serviram de escudo, pois lhe salvaram a vida numa noite escura, quando pelas costas, á traição, um milico lhe meteu um trabuco, por conta de uma peleia mal resolvida, num fandango de cola atada, num “barifú boca braba” com a mulher de um cabo. E mulher de brigadiano é endemoniada, e em qualquer bailão é bala perdida, mas também é mel na língua de um lagarto que paga seus próprios vícios e não pede socorro, e quando começa o gaitaço, fica mais “oriçado” do que cola de sorro. A bala furou o couro e ficou alojada no canto 289 de José Hernandez: -Soy um gaucho desgraciao, no tengo donde amparame. Ni um palo donde rascarme. Ni um árbol que me cubije...Pero ni aun esto me aflige, porque yo sé manejarme!! E como um selo lacrado, permaneceu ali o chumbo derretido calando a boca do livro...Numa milonga arrastada, foi se amigando com a vida, ”china atrevida”, que abriu as pernas pra ele entrar, com “todo leite nas virilha“ e fugido do quartel, sua pátria eram as estradas, as estrelas e um pingo tubiano, que de vez em quando passava uma semana em frente ao cabaré do Gravatá, atado a um palanque de cerno rachado, sob os cuidados de algum piá, filho de um “qualquiera”, que com sua mãe, sua vó e suas tias, morava lá nos fundos, numa tapera, naquele templo dos amores abandonados, escondidos, nunca esquecidos, mas muito mal pagos....Anoitecia, com o dia claro e se gastava mais do que se podia, e se pelavam naquelas mesas de carteado; o estancieiro, o prefeito e o delegado, e até o padre amanhecia na carpeta, apostando seu crucifixo dourado, contra um “par de 2 do capeta”. E lá vai o Pedro numa “borrachera”, em direção ao quarto 289 daquela pensão, cambaleando na escuridão, tropeçando nos astros distraído, seguindo o perfume de lavanda, pra deixar tudo o que havia perdido, no santo ofício de alguma dama, que levava escondido nas flores do xitão desmerecido, a paisagem íntima da América profunda, profana...uma navalha debaixo daquele vestido.
II Os reinos telúricos no submundo de Vulcano.
Mil e trocentos Gauchos...piratas pampeanos, percorrem os vales e montanhas, por onde passam todas as veias, por onde correm todas as sangas, e as putas se transformam em santas depois que se lavam nelas. E os pecados que os homens lhes confessam ainda com bafo de canha, simplesmente são levados para o mar num dia de festa e serão pérolas em um colar de sereia...um rosário, pra todos os solitários rezarem pra “Nossa senhora dasPuteiros”, um bolero apaixonado, ali de rosto colado, num momento de dúvida e fé, em que os anjos mal-domados com asas nos pés , levarão mensagens da casa da luz vermelha, pra que os “maulas” sejam julgados por suas “peleias”, apenas pelas leis de Cristo Nosso Senhor...Não por qualquer traidor, que já está condenado, a ser, o vencido e o vencedor perseguido, por seus próprios demônios juramentados, que habitam os espelhos de Narciso, nos confessionários das igrejas, dos parlamentos e senados, e entre as paredes de mármore dos labirintos, eles ficarão para sempre algemados, nas mãos limpas de Pôncio Pilatus...Mas hoje era uma manhã especial, se percebia um Martim pescador, ali nas barbas da grande figueira, uma lágrima de néctar divino escorria da flor de laranjeira...Sim!! ”São os cristais da primavera” anunciando que o verão já estava vindo!! Tudo estava muito mais perfumado, colorido...Hoje ele não foi refazer a linha do arame ali na costa do mato, por onde passa a porcada do vizinho, que pisoteia o “camalhão das batata” pra bater no milharal, judiado das caturrita. Ali ficou ele na volta “das casa”, arrumando o rancho, como se esperasse uma visita, desde os tempos em que com os guachos brincava com a língua roxa “das pitanga”, o cheiro do pão assando no forno de taipa e o tacho de arroz com leite esfriando na varanda. Por causa dessa lembrança, até matou um frangote pra comer uma bóia decente, há dias que só vinha no feijão requentado com milho catete, sabe como é:-Preguiça!Sou um velho solito, aqui no meio do mato! Explicava pra cuscada que ao seu redor “retoçava”, enquanto varria a frente do rancho com uma vassoura de carqueja branca, atada com “imbira” na ponta de uma taquara. A tarde, lindeira do meio dia, foi se chegando, e ele, um guri de 80 anos de canga e judiarias, lhe restavam poucos dentes mas muitas alegrias, sob o sereno de noventa e seis mil madrugadas...Este humilde saber planetário, já não cabia mais nas cicatrizes daquele mapa humano...em um outro mundo lhe aguardavam outros paisanos.... Ali embaixo da figueira, foi sua última “siesta”, deitado nos pelegos, adormeceu com o murmúrio da sanga, num entardecer de rubis dourados. “Os mouros” e sua caravana, foram chegando, vieram buscar sua alma, e a Pedro, o levaram por “las buenas” ...agora um pássaro daquele bando, pra imensidão azul do sul do mundo, ele se foi sonhando, mas antes de partir disse pra todos as amantes e os mais chegados, um sincero:- A las putchás...Muito obrigado!!...Nunca soube ler nem escrever, nesta breve existência mundana, mas com uma de suas penas humanas, desenhou a letra L...de LIBERDADE...que nenhum dinheiro nenhum, de homem jamais nascido, poderá comprar só pra si mesmo...A mais pura verdade !!...O sangue e a lua na adaga de prata, o ouro sagrado do amanhecer...o chumbo da bala que calou o livro, o bronze da santa do cabaré...-CompadreCoreolano, te digo. – Eu morri de saudades!!... Apenas a solidão do ferro incandescente das estrelas...ainda são faíscas dos cravos e das rosas, na cruz de qualquer estrada, troteando nas patas de um tubiano encilhado com 3 bandeiras...ainda atado ao palanque de “cerno” rachado, com uma trança de china morena,...-Viva la Pátria gran puta !! Sempre aos cuidados de uma gurizada sem pai, jogando “bulita”, em frente ao templo dos amores escondidos, de ontem e de antes, de um futuro quase esquecido... -No creó em brujas. Pero que las hay, las hay!! Já dizia a voz missioneira, num radinho de pilhas gastas sintonizado no Am da fronteira do Uruguai, lá nos fundos daquela pensão, onde uma índia lava os lençóis e “umas bombacha” e uma fralda de algodão, com lágrimas distraídas de alguma alegria, ela derrama as pérolas daquele colar, para que seus filhos possam acertar no ímba da América profunda, por onde também passam as rodas das carretas, os tanques e as bicicletas...é a “América das sarjetas”, com paus e pedras e gorjetas...contra aqueles que assistem a isso tudo, em uma poltrona de veludo, lá de cima, de um avião a jato, fumando um charuto, bebendo whisky importado...é o que oferece o sistema. Mas que também passa, despercebido pr’aquele que está solito, ali no meio do mato, fumando o primeiro pito, tomando o primeiro trago, na frente daquele rancho de taipa e santa-fé e o que Deus quiser...E quem com ele chegar... será “bem-vindo” a este humilde morar.
III Os latifúndios marcianos.
Coitado do homem do avião, em seu colo, há um computador portátil, um elefante, onde está digitada em vários idiomas a sua vida, que se resume a uma teoria de doutorado...pra entrar sem ser convidado...nos inferninhos de Dante...Morrerá enforcado numa gravata de seda florida, com seus ternos novos como mortalha, sem as cicatrizes do humilde saber codificadas na simplicidade das coisas raras, cumplicidades que ele desprezou por não serem as mais caras..é a vida... sem código de barras no balcão da venda ali perto “das casa”... Está riscado na cara do verdadeiro ser, sua própria lenda com o ferro de uma navalha...Óh compadre Coreolano!!...Óh mestres do pensamento universal!! De outros mitos que pensavam ser mestres de doutores tal, de Faustos e Midas de todos os tipos, que negociaram a “Pedra moura filosofal”, na quinta essência do ser...elemental...as salamandras...é a natureza humana da Pomba gira cigana que chegou pelas artes do oriente, aos altares de Roma em chamas, e lapidou com o martelo de vulcano no ocidente, uma vênus no céu com diamantes, uma virgem sacrificada, pré-fabricada... sem “com-Cervantes”, o clítoris da pedra fundamental do “World Trade Center”...É ovelho capitalismo feudal decadente, na nonagésima potência das décimas de Jaime Caetano Broun, na geometria galáctica das pirâmides...a sociedade perdida dos Atlantes e o blues transcendental de Jimi Hendrix... Salvaremos as almas ou as mentes? Aliens,Álibis, Clones, Mutantes...- Confundir para dividir, dividir para dominar!! Tudo ou nada? Apocalipse now, Armagedon...uma dúvida milenar, do príncipe de unhas pintadas de neon numa festa Rave, onde dj Machiavel mixará o bolero de Ravel com os tambores africanos dos filhos de Ghandi, para escolher entre os caminhos do bem ou do mal, a solidão do clã, do Tarot e seus arcanos, os faraós na penísula de Yucatã, bebendo no “Santo Graal” com todos os Césares romanos, o êxtasis de um xamã...É o magma nupcial pré-diluviano, no poder sobrenatural da ciência, que não passa de um feitiço quântico de São Cipriano, da madalena sartriana aos pés da cruz...É uma sombra de serpente espectral dançando contra a luz, é o hedonismo da gueixa que seduz, o ser mortal ao domínio da mais alta tecnologia digital e a total obediência daqueles que só sabem vender ou comprar a fria inocência do ferro na forma de cristal, o Nagual e o Tonal e os pleidianos, onde o arco íris pinkfloidiano traduz, o fractal no quartzo da lente...a mente: QUETZALQUATLI,RAZÃO ÁUREA, STONE HANGE, DNA, AL KAEDA, SPAM, CASTANEDA, RIMBAUD, LSD, ERVA-MATE, SYD BARRET, SANTO DAIME, MARYJUANA, BOB MARLEY...toca RAUL, toca NOSTRADAMUS...os arquivos deletados da inconsciência...todos os profetas do juízo final pastando juntos através dos anos, a inteligência artificial da pampa transgênica lavrada pelos satélites do “google” scaniando um quintal...o latifúndio espacial dos marcianos, onde estão plantados, on line, cartesianos...Os velhos seres humanos, Sapiens, Erectus, Cro-Magnum, Neanderthal, um homem só, o iraquinano inimigo, cheirando ouro em pó, bebendo chumbo derretido ...é o cogumelo atômico na rede, o vil-metal de suas raízes...Nunca serão livres, como o pássaro que pesca na sanga onde lavam as meretrizes...sua única flor...onde bebe o perdedor com olhos de Isis... Flor da vida mal me quer, onde passam o pólen, a sífilis e um batom qualquer, e outras vidas mais, iguais porque são diferentes D+...eterna-mente mulher de infinitos prazeres...o poeta de sabedoria humilde e poucos quereres, que cantará a morte quando lhes caem os últimos e os primeiros dentes, o poema que José Hernadez, não conseguiu acabar: -Passa passará quem ficar ficará a porteira está aberta para quem quiser passar...