Famosos
na imaginação popular, os charruas estavam
ausentes da literatura brasileira. Realmente, não
fossem as imagens do francês Debret, alguns
estudos antropológicos brasileiros e, principalmente,
os livros históricos do uruguaio Daniel Vidart,
nada se saberia sobre eles. Cavaleiros indomáveis,
nunca aceitaram o domínio dos brancos. Nem
mesmo o missioneirismo cristão. Mas na hora
da luta contra os invasores portugueses e espanhóis,
tomaram partido ao lado de Sepé Tiaraju. E
foi nas margens do rio Camaquã, território
charrua, hoje limite dos municípios de Bagé
e Caçapava do Sul, que o mártir dos
Sete Povos lançou seu brado imortal: Esta terra
tem dono!
O livro começa em 1750, em Bagé, e termina
em 1836, em Marselha, narrando os fatos mais importantes
dos últimos oitenta e seis anos da nação
charrua. Os primeiros capítulos nos permitem
entender a vida livre deste povo, quase "uma
terra sem males", a convivência harmônica
com a natureza, o respeito aos antigos costumes. Os
personagens principais, Noimahici e Ibajé,
servem de fio condutor para a feitura da trama. Através
deles, vamos entender como eram realmente os índios
do nosso pampa, muito mais humanos do que os brancos
"civilizados" que roubavam seus cavalos
e estupravam suas mulheres. O amor dos jovens charruas
é narrado com poesia e singeleza, como todos
os demais detalhes da prova de maturidade, do casamento,
do primeiro filho que nasce, da difícil conquista
da liderança da tribo.
A construção e a queda do Forte de Santa
Tecla são momentos de alta fidelidade histórica,
revelando detalhes até a pouco envolvidos na
bruma do esquecimento.
O mesmo acontece quando os charruas participam das
lutas pela independência do Uruguai e são
depois perseguidos e assassinados pelo Presidente
Rivera.
Esses e outros fatos são aqui narrados por
meus alunos Ana Maria Delabary, Ana Maria Feltrin,
Angelina Quintana, Cristiane Betemps, Elisabeth Macedo
de Fagundes, José Teixeira Brito e Orlando
Carlos Brasil. Os mesmos autores da coletânea
de contos "Estórias e lendas de Bagé",
juntamente com Bruno Delabary. Obra que os preparou,
sem dúvida, para escreverem um livro desta
envergadura. Em verdade, são graduados no gênero
conto e pós-graduados e pioneiros no gênero
romance histórico, redigido dentro de uma oficina
de criação literária. Graças
ao apoio da URCAMP, em especial da Faculdade de Comunicação,
este livro, juntamente com "Chananeco, a história
de um carreteiro", dos meus alunos Carlos Cassel,
Luiz Hugo Burin, Lucas Zamberlan e Remaldo Carlos
Cassol, do Campus de Caçapava do Sul, são
os dois primeiros romances de oficina do Rio Grande
do Sul e talvez do Brasil.
Por que a dificuldade? Em princípio, toda aquela
inerente ao trabalho coletivo. Desde a escolha do
tema, passando pela pesquisa histórica, redação
e seleção exaustiva dos textos, pela
revisão definitiva e publicação,
este livro pode ser considerado uma obra sinfônica.
Ou seja, para realizá-la, o professor foi o
maestro e os alunos os executantes. Se a música
vai ou não agradar aos seus ouvidos, é
o que saberemos a seguir. Mas a ousadia de ressuscitar
a saga dos charruas é uma conquista dos autores
que jamais se esquecerá.
* Alcy Cheuiche participou,
em julho, de evento na BPP – com lançamento
do romance histórico Os Charruas. É
autor de 17 livros, entre eles Sepé Tiaraju
– Romance dos Sete Povos, Ana Sem terra, Lord
Baccarat e A Mulher do Espelho.