Bem-vindos
a seção Amanaque do website da BPP!
Aqui você encontrará pequenos textos
em forma de notas e
curiosidades, nos mesmos molder dos antigos Almanaques.
Não fossem os registros policiais e nas páginas
dos jornais, pareceria roteiro para livro ou filme.
Por muitos traços, o personagem descrito nos
registros lembra o do título. Menos por um.
Sua ação foi desastrada e só
lhe garantiu um lugar nas páginas policiais.
O personagem: Manoel Vila Nova Santos, um baiano/paulista
com documentação dupla (também
espanhola), que se dizia jornalista e amante/comerciante
de livros antigos. O tempo: 23 de dezembro de 1943.
A ação, na Bibliotheca de Pelotas, começa
com um pedido de consulta da obra Brazil Pittoresco,
de Charles Ribeyrolles, impresso em Paris, em 1861.
Logo o funcionário constata que a mesa está
vazia. Sumiram Manoel e o livro. Detalhe: o volume
mede 90 x 70 cm e pesa, segundo os jornais da época,
20 kg. Exagero. De qualquer forma, pesado e dificil
de carregar.
Seis dias após, Manoel é preso no "aeródromo"
de Jaguarão, em trânsito para Buenos
Aires, onde dizia trabalhar com antiguidades. Confessa
o roubo e diz que agiu movido pela paixão por
preciosidades bibliográficas. Completo, o livro
acaba sendo devolvido à Bibliotheca, desencadernado
e com alguns danos. A ação do "amante
dos livros" foi um desastre do início
ao fim. Na devolução, a obra apareceu
com algumas folhas a mais. A coleção
de Manoel era alimentada por outras "fontes"...
Brazil Pittoresco - desejo e desgraça de Manoel
Vila Nova - é uma raridade que se define e
explica pelo seu quase interminável sub-título:"
Álbum de vistas, panoramas, paisagens, monumentos,
costumes, etc...com os retratos de sua majestade imperador
Don Pedro II et da familia imperial photographados
por Victor Frond, lithographados pelos primeiros artistas
de Paris" ( segue longa lista dos artistas).
Depois do "passeio involuntário"
por São Paulo, o álbum ganhou lugar
especial na sala de obras raras: um envidraçado
e protegido mostruário. Prevenção
contra "paixões" arrebatadoras...
Retratos da Vida
No dia em que o Diário Popular comemorava
seus terceiro ano, uma nota cuidadosa, contida
e cheia de adjetivos - bem ao estilo da época
e circunstância - apontava mais uma baixa
de inverno na família Lobo da
Costa. "Na madrugada de hontem foi
encontrado morto de congelação por uma
patrulha da Guarda Municipal, em uma sarjeta próxima
ao mercado, o infortunado moço Luiz Lobo da Costa,
que há anos vivia retrahido da sociedade, arrastando
uma vida miserável", apontava a abertura
da nota da edição de 27 de agosto de 1893.
Mais adiante, o texto salientava que, "como seu
irmão, Luiz versejava nas horas vagas, e dispunha
de uma inteligência culta, sendo para lamentar
que não tivesse o valor preciso para resitir
aos embates da sorte, que tão cruelmente flagellara
a ele e a seu irmão durante a vida"
Sobre as circunstâncias da morte do irmão
do poeta, o jornal Echos do Sul, edição
de 29 de agosto de 1893, destacava os esforços
da Guarda Municipal para reanimar Luiz "despejando
pela boca café quente e cognac". O texto
do jornal ainda informa que o "desditoso"
sofria de "amolecimento cerebral".
Cinco anos antes, o mesmo estilo de texto anunciava
a morte, em circunstâncias semelhantes, de Francisco
Lobo da Costa, o poeta.